Moçambique é um país jovem… duplamente jovem!É um país jovem pelos seus quase 34 anos de independência (onde pelo meio quase estagnou com uma guerra civil de 16 anos), mas também pela baixíssima média etária que caracteriza a sua população.
Desta forma, e como qualquer adolescente, também Moçambique parece-me travar uma luta interna: a luta para cimentar a sua própria identidade e pela sua auto afirmação.
Os mais atentos (entre os quais alguns moçambicanos com quem já troquei esta impressão) conseguem sentir em várias alturas do quotidiano essa necessidade do povo moçambicano em maturar a sua “moçambicanidade”, mesmo sendo Moçambique um país que transborda potencialidades de toda a espécie, um país de uma cultura riquíssima fruto de uma sociedade multicultural como poucas (formada por africanos, europeus, árabes, indianos, chineses, cristãos, muçulmanos, hindus, etc…) e sendo visto como um dos países mais estáveis não só ao nível da África Austral mas do próprio continente africano.
Como todos os jovens em processo de enraizamento da auto-identidade, parece-me que Moçambique umas vezes acerta nos métodos adoptados para tal, e noutras não!
Como exemplos positivos entre vários: as campanhas de muitas empresas existentes no país… onde se destaca na minha opinião um spot publicitário de mais de 1 minuto da Mcel onde participam várias figuras nacionais marcantes e acaba com a frase “orgulhosamente moçambicanos” e também um grande esforço por parte do governo em promover tudo o que é nacional visando a sua unidade com a campanha “Moçambique em acção”.
Agora… sendo Moçambique o pais cheio de potencialidades que é e tendo a cultura riquíssima que tem como já referi anteriormente, não me parece ser um bom caminho fazer desenterrar fantasmas do passado visando a auto afirmação no futuro!
Não é por ser português que me vou sentir constrangido quando falo com um moçambicano sobre muitas das atrocidades que os portugueses infringiram aos moçambicanos enquanto Moçambique colónia portuguesa! Primeiro porque a minha postura perante qualquer moçambicano, cabo-verdiano, angolano, guineense ou são-tomense ou as dezenas de amigos que tenho a sorte de somar dessas nacionalidades falam por si; e depois porque não se pode condenar um filho pelos crimes dos pais!
Por isso é desprovido de qualquer hipotético sentimento de melindre que não posso deixar de comentar o que ouvi no sábado na Rádio de Moçambique (rádio estatal) logo às 8 da manhã e que me fez pensar que ainda estaria a sonhar!
Nesse dia fui acordado por um programa infantil, onde era simulada uma conversa duma mãe com o seu filho. Nessa conversa a mãe relatava ao filho como eram tratados os moçambicanos pelos portugueses na época colonial assim como ia respondendo a perguntas que surgiam na cabeça da criança! Até aqui nada de mais, até porque acho de extrema importância as crianças terem conhecimento dos factos que constam da História do seu país.
O que me deixou perplexo foi que durante os 15 minutos do programa as palavras “português” ou “portugueses” não foram prenunciadas uma única vez, e foram SEMPRE substituídas por “branco” ou “brancos”. E toda a conversa girou à volta de como as crianças “brancas” eram principescamente tratadas e as crianças negras eram selvaticamente ostracizadas ou relatando todo o tipo de técnicas usadas pelos adultos “brancos” para inferiorizar, ofender e atingir os pais das crianças moçambicanas!
Bem… primeiro não creio que esta aula para as crianças tenha sido muito proveitosa, uma vez que os “brancos” que elas mais conhecem são sul-africanos e não portugueses! Depois da maneira que o programa infantil foi conduzido (nada próprio a uma criança menor de 10 anos pela provável incapacidade em compreender totalmente a fronteira da esfera temporal dos factos reportados) posso garantir que a cultura geral apreendida pelas crianças que ouviram a Rádio de Moçambique foi largamente suplantada pelos níveis racismo adquirido contra TODOS os “brancos”; com todos os graves problemas sociais que daí advêm.
Já há uns meses atrás estive presente numa cerimónia oficial, onde a mais alta figura destacada pelo Estado para a cerimónia num discurso para mais de 100 pessoas que durou uns 20 minutos, conseguiu passar 15 deles a falar da época colonial e como estaria mal Moçambique se não tivesse acontecido a independência. Basta referir que o tema da cerimónia era a “Abertura do Ano Lectivo Universitário”… portanto… pôs disco errado…
Sinceramente, já se passaram quase 34 anos e a esperança média de vida de um moçambicano ronda os 40…
Não querendo que os moçambicanos dêem um papel de somenos importância aos factos históricos da época colonial, até porque seria um enorme desrespeito quer com todos os moçambicanos que sofreram todo o tipo de barbaridades naquela época quer com aqueles que deram a vida pela sua independência, não acho que a melhor forma de trilhar os caminhos do cimentar da identidade moçambicana e da sua auto afirmação seja o perpetuar a memória de um povo mártir às mãos dos antigos colonialistas, até porque como diz o próprio Mia Couto “não nos podemos esquecer que no colonialismo também houve mão de dentro”. Não vejo nessa estratégia (usada por alguns) nenhum, mas mesmo nenhum benefício, no objectivo de ser um país evoluído e vencedor no futuro! Felizmente que Moçambique tem muito mais por onde se agarrar e fazer crescer a tão propalada “moçambicanidade” que tanto se orgulha!


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